A Luta é Alegria – Homens da Luta

Como cidadão português, minimamente activo e preocupado com o seu país e com o meio que o rodeia, tenho acompanhado sempre que posso as canções que participam anualmente no Festival da Canção da Eurovisão. Afinal é uma representação internacional da nossa música, daquilo que se faz por cá, no fundo… um bocadinho daquilo que somos capazes de fazer para mostrar aos outros.
Como tal preocupa-me o facto de ter sido escolhida uma música demasiado reaccionária e tão pobre musicalmente. Trata-se de A Luta é Alegria da autoria dos Homens da Luta. Uma canção que mais parece um grito de manifestação preparado no dia anterior a uma “manif”, composta por frases que vão surgindo à ideia dos organizadores na última reunião, baseando-se apenas no objectivo do protesto que pretendem fazer.
Por um lado e ressalvo desde já que os meus conhecimentos de música são parcos ou inexistentes, acho a melodia muito pobre, simples, ou até como diriam alguém, azeiteira! Mas isso penso ser o menos mau. Pois a letra também me causa uma grande confusão na cabeça. Senão vejamos:
Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperarDe noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritarDe pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudarDe noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar
Até aqui entende-se bem a mensagem que pretende ser deixada pelos autores, penso que nem é necessário explicar pois cada um de nós sabe por experiência própria e certamente consegue até rever-se nestas palavras dada a situação em que vivemos actualmente. Mas continuemos a analisar a letra:
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o meninoVem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Neste conjunto de versos já nos deparamos repentinamente com um apelo para que se arranje alguma coisa “para picar” a fim de celebrar uma dada situação. Não consigo perceber se o que é que se pretende celebrar! A situação descrita nos versos anteriores?Seria um c0trasenso. Creio que seja apenas o facto do povo estar na rua a gritar certo? Ok, se assim for percebi. Mas o restante é que não consigo entender mesmo, por muito que matute sobre o assunto… «vamos cantar contra a reacção» Contra que reacção? A reacção do povo que sai à rua a gritar? Não vejo outra senão essa. Se o povo ao sair à rua para gritar pelos seus ideais está a ter uma atitude reaccionária e se é isso que a música pede que seja feito no inicio da mesma, não consigo entender como se pede depois para contrariar essa reacção! Vamos nós cantar contra a uma reacção que nós mesmos estamos a ter? Confuso não!?
Apesar da analise, meramente pessoal, sobre esta música, quero deixar bem claro que nada tenho em especial contra os Homens da Luta. Nem contra qualquer outro grupo que faça música deste ou de outro género idêntico, mesmo que sem a qualidade musical e a coerência que seriam esperadas. Julgo apenas que há que perceber a diferença entre música e “humor musical” e colocar cada uma no seu devido lugar.
Deixo alguns exemplos para explicar melhor o que pretendo dizer ao estabelecer essa diferença. Música é aquilo que já conhecemos há anos e que estamos habituados a ouvir, cada uma com o seu estilo, a sua cultura, enfim. Há música para todos os gostos. Já o tal humor musical de que falo trata-se de pequenos temas feitos apenas com o intuito de fazer humor. Por exemplo, os Maria Amélia do programa 5 Para a Meia Noite apresentado pelo Nilton, seria um insulto a muita gente chamar àquilo música, no entanto não deixa de ter a sua piada.

